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Os desafios de uma chapa feminina

Grupo de mulheres se uniu para tentar 'desmasculinizar' a política; cientista político avalia que segmentação do discurso dificulta a 'conquista do eleitor'

Enquanto parte das siglas em Pernambuco faz articulações para fechar a composição dos candidatos da disputa majoritária, o PSol e o PCB já completaram a sua chapa, que será formada apenas por mulheres. O grupo, no entanto, tem vários desafios a superar. A começar pela ocupação na política de um espaço eminentemente masculino, conseguir se tornar visível ao eleitor – a sigla terá 15 a 20 segundos de tempo de televisão – e apresentar um programa de governo que vá além de uma pauta puramente feminista.

A chapa é formada pela pré-candidata ao governo do estado, a advogada, historiadora e professora, Dani Portela (PSol), e pela educadora social e cientista social, Gerlane Simões (PCB) que concorrerá como vice. Para o Senado, o PSol enfrentará as urnas com as pré-candidaturas de Albanise Pires, servidora concursada do Ministério Público Federal, e Eugênia Lima, mestre em Desenvolvimento Urbano pela UFPE. O grupo parece disposto a quebrar a lógica de que vencer a eleição no estado precisa de um DNA político. “A maioria das mulheres que está na política é filha de, mulher de, missionárias de determinadas igrejas. Não dá mais para não querer falar de política porque ela já entrou na nossa casa, no orçamento familiar, no hospital e na escola. Não podemos deixar que governem sem a gente”, enfatizou Eugênia Lima.

Segundo Dani Portela, por ser uma chapa feminina e feminista, elas precisam provar a capacidade duas vezes. “Nossa voz foi silenciada por muito tempo e somos invisíveis. Fomos invisibilizada durante séculos. Agora é nosso momento de fazer ecoar a nossa voz”, destacou. De acordo com ela, em todos os espaços de poder, as pessoas acabam reproduzindo a lógica de uma sociedade machista e patriarcal. “Sempre nos foi dito que o espaço público não era nosso, era eminentemente masculino. Nosso desafio é fazer com que a mulher entenda a importância da representatividade, que ela precisa eleger pessoas que atuem com pauta políticas específicas para a vida delas”, destacou.
Com a experiência de ter participado de três eleições anteriores, Albanise Pires acredita que a chapa formada apenas por mulheres sensibilizará o eleitorado feminino por meio do diálogo e a partir da realidade e do cotidiano. A pré-candidata do PSol ressalta que a chapa não é só para constar nesta eleição, como acontece em muitos partidos em que as candidaturas femininas são colocadas para cumprir a cota exigida pela Justiça Eleitoral. “Quando se fala em creche, escolas, moradia, hospitais e segurança pública estamos falando da realidade do eleitor. Temos propostas para as mulheres, mas não só para elas”, garantiu.

Na avaliação de Eugênia Lima, é preciso “desmasculinizar” a política e não adianta apenas trocar homens por mulheres se elas mantiverem a cultura de funcionamento masculinizada. “A política é feita de homens para homens. O desafio é enorme porque estamos num estado hiperconservador. Infelizmente nem todas podem se indignar e ir para a luta. Estamos dispostas a brigar por esse espaço”, avisou.

Discurso feminista 

Para o cientista político e integrante do Núcleo de Estudos Eleitorais e Partidários da UFPE, Hely Ferreira, a ênfase dada pelas candidatas majoritárias do PSol e PCB ao se apresentarem como uma chapa feminina e feminista dificulta a captação de votos. “Estamos numa sociedade patriarcal. Isso não se muda da noite para o dia. Quando se está no Poder Legislativo você pode representar determinado grupo, mas no Executivo se governa para todos”, advertiu. De acordo com Hely, não se pode pensar num só ideal numa eleição (pauta feminina). “Isso é um ponto positivo, mas, ao mesmo tempo, é preciso pensar que democracia se faz com pluralidade de ideias e não com ideologia única”, alertou. Ferreira avalia como prejudicial o fato do PSol levar o discurso feminista do começo até o final da campanha. “Elas terão que dosar isso. No quesito saúde vai pensar políticas públicas apenas para mulher? E o Homem? E como fica a segurança pública? Não é segmentando o discurso que conquista o eleitor, mas fazendo com que todos sejam partícipes no processo”, destacou.

Fonte: Diário de Pernambuco

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