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À sombra do futebol, Íbis recorre à "vaquinha" para sobreviver

Equipe tenta arrecadar fundos para voltar aos treinos presenciais e disputar Campeonato Pernambucano 2020

Em 1991, Roseli, Márcia Taffarel, Pretinha e companhia experimentavam o sabor doce-amargo de representar o Brasil na primeira edição da Copa do Mundo de futebol feminino, realizada na China. Até então, sem grandes expectativas das confederações sobre os frutos que o evento poderia colher, afinal, um Mundial organizado para a modalidade ainda era luxo, tendo em vista as condições de jogo oferecidas para as atletas. Chuteira com um palmo do pé sobrando e uniforme masculino foram algumas das situações encaradas pelas brasileiras no período. 

A história tem seus vícios e, caso ignorada, tem poder absoluto de ser perpetuada entre as brechas oferecidas pelo futebol, às vezes de maneira igualmente desastrosa. Passados 29 anos, o caso se repete - de forma não pontual -, por exemplo, no time feminino do Íbis. Com 23 anos de idade, quem atesta o ciclo sintomático é a capitã e lateral esquerda da equipe, Rayane Gois. 

"É complicado demais. A gente pega uniforme sujo ainda. Tem que levar para casa um dia antes de jogar para poder lavar e esperar secar. Muitas vezes os meninos têm jogo antes da gente, aí já pegamos os uniformes sujos. Mas sempre que jogamos, entregamos limpo", relata. As atividades do departamento feminino não são remuneradas, portanto, as atletas, assim como os outros seis profissionais que trabalham na equipe, não recebem ajuda de custo. O recorte de gênero é indissociável dos aspectos que denunciam o contínuo estado de “sombra” ocupado pela modalidade, sendo esse apenas um dos contratempos enfrentados pelo time, mas que é ponto chave para as diversas outras barreiras vivenciadas, dentro e fora de campo. 

Composto atualmente por 28 jogadoras, o clube tem sofrido para manter o departamento e arcar com custos mínimos, como taxa de inscrição das atletas nas competições estaduais (em torno de R$ 195, cada jogadora), taxa para a liberação do BID e cadastramento de todos os atletas do clube (R$ 2,2 mil) e transferência interestadual das meninas que atuam no elenco, mas são residentes em outro estado (R$ 1,3 mil, cada). Sem patrocínio para ajudar no pagamento dessas despesas, o técnico e coordenador do departamento feminino do Pássaro Preto, Cristiano Recife, junto ao elenco, lançou "vaquinha" virtual para angariar recursos, disponível no site Vakinha

A ideia é conseguir o máximo de recurso possível para viabilizar a participação da equipe no Campeonato Pernambucano 2020. “A vaquinha será destinada para o pagamento de transporte, alimentação, inscrições e transferências”, resume o comandante rubro-negro. Na modalidade, porém, existe grande possibilidade de a competição não acontecer este ano, devido ao aperto no calendário da Federação Pernambucana de Futebol (FPF) ocasionado pela paralisação do futebol, uma consequência da pandemia do novo coronavírus. 

Ainda assim, as atletas não podem ficar paradas e, assim como o time masculino, vislumbram retornar aos treinos presenciais, no campo municipal do Poeirão, em Igarassu (RMR), após a liberação concedida pelo Governo do Estado, seguindo as recomendações sanitárias. Por outro lado, retornar aos trabalhos restritivos significa mais despesas e maior esforço para conseguir os testes rápidos de Covid-19. “Estamos querendo voltar aos treinos, mas se para o masculino está difícil, imagine para o feminino receber os testes rápidos. Não temos também nenhuma condição de comprá-los”, lamenta Cristiano.

À espera pelo “sim”

Desde março, a equipe tem se desdobrado atrás de patrocinadores. Geralmente apoiados em justificativas pouco convincentes, segundo Cristiano Recife, o time recebe "não" como resposta repetidamente. "Antes da pandemia, eu tinha ido atrás de alguns patrocinadores que iriam colocar pouco no clube, mas iriam patrocinar, com as inscrições, nossas viagens, ônibus, alimentação. A gente não tem apoio. Corremos atrás de oito a nove empresas e a resposta de todas foi não”.  

O amor ao futebol, aliado à falta de apoio para a continuidade das atividades, mobiliza o comandante rubro-negro a bancar boa parte do custeio do time com recursos próprios. Além dele, que está há dois anos à frente da equipe, os pais e as próprias atletas financiam parcialmente os materiais utilizados no dia a dia.   

“O professor bancava tudo desde o começo, mas chega uma hora que o dinheiro acaba. Quem está desde o início sabe o quanto é sofrido a gente estar ali nos treinos disputando uma competição. Ele estava com a gente desde o começo e nós também não iríamos abandonar ele”, ressalta Rayane. Entre falas que na prática dialogam entre si, o treinador acrescenta: “eu luto por um futebol justo e creio que um dia as coisas possam estar mais igualitárias”.

O mesmo é esperado por Rayne, que tem como sonho disputar a elite do futebol brasileiro. "Desde quando eu comecei a jogar, meu sonho é jogar o Brasileiro. Se eu conseguir, acho que sou a pessoa mais realizada desse mundo".

Fonte: Folha PE

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