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Estudo genético indica semelhanças entre coronavírus que circula em Pernambuco e na Europa

Pesquisadores da Fiocruz-PE chegaram ao resultado após realizar o sequenciamento genético de 39 genomas do Sars-CoV-2 que circularam no Estado no início da epidemia

Pesquisadores da Fundação Oswaldo Cruz em Pernambuco (Fiocruz-PE) descobriram, usando técnicas de sequenciamento genético, que as cepas do novo coronavírus (Sars-CoV-2) que circulam no Estado têm semelhanças àquelas encontradas em países da Europa. Tal descoberta, divulgada nesta quinta-feira (6), indica que o vírus da Covid-19 chegou a Pernambuco por essa rota. 

Para a identificação, os cientistas realizaram o sequenciamento de 39 genomas do Sars-CoV-2 que circularam em Pernambuco no início da epidemia. As amostras foram coletadas no Recife e em cidades da Região Metropolitana, como Olinda, Jaboatão dos Guararapes, Camaragibe e Paulista, pontos iniciais do primeiro surto da doença, em março, e em Aliança, na Zona da Mata Norte. 

Além das linhagens europeias, a pesquisa identificou semelhanças das amostras entre as diferentes cidades e com estados vizinhos, o que indica a origem e o fluxo do vírus no Estado. Uma nova rodada da pesquisa, com mais de 60 genomas vindos de amostras de municípios do Interior será realizada e terá seus resultados divulgados posteriormente. O artigo científico com os resultados da primeira fase da pesquisa deverá ser disponibilizado na próxima semana.

O conhecimento desses genomas representa um avanço para o desenvolvimento das vacinas e tratamentos eficazes para a doença, além de indicar a efetividade da imunização na população local. “Encontramos em Pernambuco 39 genomas que pertencem a duas principais linhagens de algum país europeu, pois há uma semelhança muito grande. Muitas das linhagens virais se espalharam pelo mundo a partir daquele primeiro grande surto na Europa. O conhecimento genômico permite traçar essas rotas”, explicou o pesquisador e coordenador do projeto da Fiocruz-PE, Gabriel Wallau.
 
A notificação oficial dos primeiros casos da Covid-19 em Pernambuco ocorreu há quase cinco meses, em 12 de março. Na ocasião, a Secretaria Estadual de Saúde (SES-PE) informou que um casal, uma mulher de 66 anos e um homem de 71, foram os primeiros infectados com resultados de testes laboratoriais positivos. 

Os dois tinham histórico de viagem recente para a cidade de Roma, capital da Itália, então segundo país com mais casos da doença causada pelo novo coronavírus em todo o mundo. O resultado da pesquisa feita em Pernambuco pode indicar que o vírus chegou, de fato, através de passageiros infectados que adquiriram o vírus no continente europeu. A próxima fase permitirá aos pesquisadores mapear com mais precisão o espalhamento viral e o momento em que o vírus entrou em Pernambuco.

“Precisamos identificar quais as linhagens que estão ativas, estão circulando e saber se o vírus muta rápido, assim como conhecer como o vírus se comporta. Esse tipo de conhecimento pode guiar a busca por vacinas e medicamentos”, detalhou Gabriel.

Para chegar ao resultado, os pesquisadores utilizaram o sequenciador de DNA de alto desempenho do Núcleo de Plataformas Tecnológicas da Fiocruz-PE. Profissionais do Laboratório Central de Saúde Pública de Pernambuco (Lacen-PE) e da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) colaboraram com o projeto.

“O sequenciamento entende quais são as bases genéticas das linhas de coronavírus que circulam no Estado e buscam comparar com o esforço enorme que está se fazendo no mundo. A disponibilização dessa informação básica, que é o genoma, permitiu uma resposta rápida da pesquisa científica [à Covid-19]. A partir disso, vários protocolos foram desenvolvidos”, acrescentou o coordenador.

Ainda de acordo com Gabriel, algumas das linhagens têm padrão de espalhamento nos estados brasileiros e várias se agruparam entre si, o que corrobora com os dados de epidemiologia sobre a transmissão local do vírus. “O coronavírus se espalha rapidamente quando entra em uma população não exposta antes”, concluiu.

Apesar da existência de linhagens diferentes, ainda não há indícios científicos de que uma seja mais letal do que a outra. Os resultados obtidos pela pesquisa pernambucana serão inseridos em um banco mundial de dados, que já conta com mais de 70 mil amostras de genoma.

Em junho, a Fiocruz anunciou a decodificação de 54 genomas completos do novo coronavírus que circularam em cinco estados do Brasil - Rio de Janeiro, Alagoas, Bahia, Espírito Santo e Santa Catarina - e no Distrito Federal. As informações genômicas encontradas nas amostras apontam para semelhanças entre as cepas brasileiras com as encontradas em países da América do Norte, da Europa e da Oceania. A descoberta indica, tal como a da pesquisa de Pernambuco, de onde o vírus que circula no Brasil tem origem geográfica.

Sequenciamento
Sequenciamento nada mais é do que identificar e codificar o genoma de um organismo. Todos os organismos vivos são compostos por ácido desoxirribonucleico, o famoso DNA (na sigla em inglês), ou por RNA (o ácido ribonucleico, também na sigla em inglês). 

DNA e RNA são formados por um conjunto de letras, as bases nitrogenadas, que funcionam como um código, uma espécie de palavra. Cada trinca de bases nitrogenadas constrói as proteínas de um organismo. É como se os genomas fossem um conjunto de palavras de um livro que só pode ser lido se cada letra de cada palavra for corretamente indicada. No caso do coronavírus, o genoma é de RNA. A leitura é feita por sequenciadores, como o utilizado pela Fiocruz-PE, que usam marcadores e fazem cópias das bases a serem lidas e identificadas.

O Brasil, inclusive, é pioneiro no sequenciamento do Sars-CoV-2. Em 28 de fevereiro, apenas dois dias após a confirmação oficial do primeiro caso da Covid-19 no País, o Instituto de Medicina Tropical da Universidade de São Paulo (USP) anunciou ter completado o sequenciamento do genoma do novo coronavírus.

Com o resultado do trabalho do grupo coordenado pelas cientistas Ester Sabino e Jaqueline Goes de Jesus, o Brasil se tornou o primeiro país do mundo a sequenciar o genoma.

Outro estudo
Paralelamente ao sequenciamento desenvolvido pela pesquisa da Fiocruz-PE, pesquisadores da UFPE também trabalham no sequenciamento das cepas. Segundo o coordenador do projeto, o professor Valdir de Queiroz Balbino, do Laboratório de Bioinformática e Biologia Evolutiva (Labbe) do Departamento de Genética, já foram obtidas mais de 90 sequências genômicas do vírus, provenientes do Recife e de cidades do Interior, como Caruaru, Toritama, Santa Cruz do Capibaribe e Serra Talhada.

O estudo é feito no sequenciador modelo Miseq lllumina. O estudo inclui amostras representativas de vários municípios pernambucanos, com o objetivo de melhorar a representação da diversidade genética das cepas circulantes no Estado. Os trabalhos, segundo Balbino, devem ser finalizados nesta sexta-feira (7), e a divulgação dos resultados deve ocorrer na próxima semana.

Coronavírus em Pernambuco
Os dados mais recentes da SES-PE apontam que o Estado ultrapassou a marca de 100 mil infectados pela Covid-19. Segundo o informe desta quinta-feira, foram registradas mais 1.074 notificações positivas, elevando o total a 101.395. 

O número de mortes subiu para 6.828, com as 70 confirmadas na atualização. Já as curas clínicas são 77.142, contando com as 1.373 informadas na quarta-feira.

Entre os 1.074 novos casos confirmados pela SES-PE, a grande maioria (92,6%) é de casos leves, aqueles pacientes que não demandam atendimento hospitalar. Os demais 79 (7,4%) são de casos classificados como Síndrome Respiratória Aguda Grave (Srag).

Ainda segundo a secretaria, no informe da quarta-feira, a taxa de ocupação de leitos dedicados à Covid-19 no Estado está em 56%. Ao todo, são 1.931 vagas para pacientes graves com a doença na rede pública de saúde. Dos leitos de UTI, 66% estão ocupados. A ocupação dos leitos de enfermaria, por sua vez, é de 48%.

Fonte: Folha PE

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