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'Novo normal' não é relativizar riscos da Covid-19; analistas avaliam aglomerações em PE

Imagens de praias e ônibus cheios repercutem temor por "segunda onda". Desigualdade social e naturalização da tragédia agravam efeitos da pandemia.


Segunda-feira, 7 de setembro de 2020. Cartão-postal do Recife, a praia de Boa Viagem, na Zona Sul, é tomada de sol. O céu sem nuvens convida a multidão a andar pela areia, entrar na água ou relaxar na sombra dos edifícios. Nada fora do que se espera de uma abertura extraoficial do verão. Mas, na imagem captada pelo fotógrafo Rafael Furtado, desta Folha de Pernambuco, também se encontra, acima de todos, a bandeira com o desenho de uma caveira sobre duas espadas longas e curvadas como as armas dos piratas vistos nos filmes. Parece feita sob medida para lembrar que tudo seria normal se o ano não fosse de pandemia.

As cenas de aglomeração do último feriado circularam como sinais de alerta em páginas de rede social e grupos de WhatsApp. O temor é que ocorra aqui o mesmo que têm enfrentado países mundo afora: a “segunda onda” de infecção pelo novo coronavírus. Após um período de estabilidade e queda no número de casos, com flexibilização das medidas de restrição à circulação de pessoas, a curva de notificações voltou a subir em lugares como Israel, Índia, Espanha e Reino Unido (veja infográfico abaixo).


Em Pernambuco, que vive um momento de retomada das atividades sociais e econômicas em meio ao avanço do Plano de Convivência com a Covid-19, o secretário de Saúde, André Longo, tem repetido que, caso o descumprimento das normas sanitárias provoque uma nova alta, deve recuar nas etapas de reabertura realizadas até agora. “Não encontramos ainda indicadores que apontem para alguma repercussão daquele comportamento [do feriado]. É fato que ainda estamos na segunda semana e pode haver algum tipo de repercussão. A gente sabe que existe um ‘delay’ entre uma situação como essa e o aparecimento de mais casos que apontem para a gravidade”, disse o gestor na coletiva da última quinta-feira (17).


A equação do “novo normal” baseia-se nas estatísticas, mas contém variáveis subjetivas e de difícil controle no curto prazo, como o comportamento, a cultura e as necessidades da população. Do ponto de vista numérico, a evolução da pandemia apresenta melhoras desde junho. Na data seguinte ao feriado da Independência, o Recife, onde esta semana mais um hospital de campanha começou a ser desativado, confirmou o primeiro dia sem registro de mortes por Covid-19 em cinco meses. No interior, que vinha preocupando as autoridades sanitárias, as solicitações para internamentos em UTIs também têm diminuído. O vírus, no entanto, não deixou de circular.


Muito pelo contrário. O estatístico e epidemiologista Wayner Vieira, professor do Programa de Pós-Graduação em Saúde Pública do Instituto Aggeu Magalhães (Fiocruz-PE), avalia que, embora as reduções pareçam consistentes, os dados ainda oscilam em patamar elevado. “A média móvel vem diminuindo, mas ainda estamos em cerca de mil casos por semana. E o número de óbitos vem caindo. Esses dois dados demonstram que o vírus continua circulando e que, se não seguirmos naquilo que parece ser o caminho correto, que é manter o distanciamento social, nós corremos o risco de um reagravamento da situação”, diz, acrescentando que, no momento, não pode fazer uma previsão sobre a chegada de uma segunda onda a Pernambuco.


O problema, porém, não está só no futuro. Como recorda o pesquisador Jones Albuquerque, do Laboratório de Imunopatologia Keizo Asami (Lika) da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), apesar da redução em comparação com os meses de abril e maio, ainda morre, no Estado, uma média de 20 a 30 pacientes por dia. “Nós aprendemos com os intensivistas, os corticoides, os anti-inflamatórios, então morre menos gente. Mesmo assim, são duas, três dezenas de pessoas. Se cair um ônibus na BR-232 com 30 pessoas, isso dá matéria de capa com certeza. Hoje isso acontece [com a Covid], e as pessoas não se chocam mais”, observa.


A naturalização de uma tragédia que pode ser atenuada e, até mesmo, evitada em muitos casos colabora com o descuido. No meio das aglomerações, é comum ver pedestres, ciclistas e motoristas circulando com a máscara no queixo ou com o rosto inteiramente descoberto. Cenas flagradas com facilidade por este repórter e pelo fotógrafo Arthur de Souza durante a produção da reportagem. Não só nas praias, mas também, ainda que em menor escala, nos parques, comunidades, paradas de ônibus, estações de metrô.


Diante da perspectiva de mais dois feriadões nacionais nos próximos meses, o da Padroeira do Brasil e o de Finados - 12 de outubro e 2 de novembro, respectivamente -, a movimentação entre cidades é um dos fatores que mais preocupam o estatístico Jones Albuquerque. “Quando a Região Metropolitana estourou, o interior estava [com nível de contágio] baixo, então a contaminação não se espalhava e os leitos eram usados por aqui. Quando começa o plano de reabertura, a pandemia vai para o interior, como aconteceu no País todo. Muitos dos hospitais dos municípios transferiram seus pacientes para a RMR. Qual é o perigo? Muita gente se deslocou de um canto para o outro, muita gente de Caruaru foi para Maragogi (AL), muita gente do Recife se espalhou pela orla. Quando isso se mistura, gera um sincronismo de contaminação, com o interior e a capital crescendo juntos”, alerta.


Tragédia natural?

Passados seis meses desde a notificação dos primeiros casos de Covid-19 em Pernambuco, a escalada diária de infecções torna a morte uma ideia abstrata à medida que as pessoas flexibilizam a quarentena amplamente recomendada no início da pandemia. Na visão do sociólogo Tarcísio Augusto Alves da Silva, professor do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), diferentes fatores contribuem para isso (veja vídeo no fim da matéria).


“Há a questão da desigualdade social, que define quem pode e quem não pode fazer o isolamento. O segundo elemento diz respeito aos aspectos psicológicos. Uma parte das pessoas passou quatro meses isoladas e as pesquisas mostram que uma das consequências do confinamento é querer extrapolar esses limites. Ir para a rua indica uma forma de desopilar. E um terceiro aspecto é a dimensão do negacionismo [da ciência], que está muito evidente hoje”, analisa.


O quarto fator citado por ele é a naturalização da tragédia que envolve a pandemia. Para o pesquisador, a própria noção de “novo normal” relativiza os riscos e o sofrimento causados pela doença. “Você começa a conviver com aquilo e vai criando estratégias de naturalização. Eu começo a acreditar que o novo normal é a naturalização da morte. Hoje continuamos sendo o país em segundo lugar no ranking de mortes no mundo e o ‘novo normal’ é conviver com esse tipo de notícia”, argumenta. Infectologista do Hospital Universitário Oswaldo Cruz (Huoc), o médico Bruno Ishigami acrescenta que, no Brasil, a população tem um histórico de se acostumar com tragédias. “Resgatando da memória, tivemos os acidentes de Mariana e Brumadinho (MG), as mortes [por violência] no Rio de Janeiro, e as pessoas se esquecem”.


Para o profissional de saúde, falta uma parte da sociedade entender que a vida só poderá voltar ao normal após a vacina. “Até lá, a gente não sabe quantos por cento da população do Recife tiveram contato com o vírus. Não há um estudo local nem para falar de imunidade de rebanho”, afirma. “A gente tem que ter muito cuidado para não se acostumar com esse caos. Porque se acostumar é negar a nossa própria vida enquanto cidadãos”.


Presidente do Movimento Pró-Pernambuco, grupo de entidades de diversos setores da iniciativa privada, Avelar Loureiro Filho classifica, no entanto, como satisfatória a condução da retomada até o momento. “De junho para cá, a gente teve uma flexibilização, começando pelos setores mais empregadores, e a curva só tem caído. Não podemos esquecer que a pandemia tem sua dinâmica e suas curvas naturais, há uma sazonalidade esperada, com o pico aqui no Nordeste em abril e maio. O que a gente nota é que a própria sociedade está um pouco cansada do confinamento em que ela foi corretamente colocada”, afirma.


Desigualdade

Muito além do surgimento “natural” de um vírus, o contraste de realidades entre ricos e pobres - problema histórico no Brasil - é mais um fator social que agrava a tragédia mundial provocada pela pandemia. Quando veio a Pernambuco, o Sars-Cov-2 atingiu primeiro bairros de classe média para depois chegar às periferias, onde problemas de infraestrutura como falta de saneamento básico e acesso a água e esgoto serviram de entraves para a população tomar as medidas de higiene necessárias à prevenção contra a doença.


Tainara Feliciano, 21, sente isso no dia a dia. Mãe de uma menina de 2 anos, ela mora com o marido e a mãe na comunidade do Pilar, no Centro do Recife. A família se sustenta da venda de lanches e agora também recebe o auxílio emergencial. Até o início da quarentena, não tinham água em casa. Viram então uma oportunidade quando o padre da localidade, em parceria com uma construtora, instalou um conjunto de pias na rua de frente. “Meu marido cavou e a gente ligou com um cano para a água chegar até aqui”, conta Tainara. “Ele [o padre] deu álcool 70%, máscara, às vezes traz doações. Não fosse isso, ia ser mais difícil”.


Tendo em vista a disparidade com que as diferentes classes sociais se defrontam no cotidiano, manter um discurso único sobre a necessidade do confinamento domiciliar não é possível. A presidente da Central Única das Favelas (Cufa), Altamiza Melo, lembra que, nas periferias, a falta de opções de lazer e boas condições de moradia dificultam o confinamento. “É muito difícil falar em isolamento e evitar aglomeração quando se fala de favelas”, avalia. “A realidade da maioria é morar muito próximo, num espaço pequeno, onde não dá para manter o distanciamento. As pessoas passaram muito tempo sem acesso a um parque, à praia, ao futebol, e nesse primeiro feriado foi quase uma multidão de Carnaval. Por quê? Porque é o lazer que não é caro”.


Por isso, segundo Altamiza Melo, é preciso haver uma política de retomada e enfrentamento à Covid específica para as periferias. “A favela sobrevive, em sua maioria, do comércio informal, do microempreendedorismo e do trabalho doméstico. Nós precisamos pensar a retomada econômica das favelas”, defende.


Transporte de aglomerações

Outro ponto que demarca a diferença entre pobres e ricos é a dependência do transporte público, um espaço de aglomerações que se repetem nos horários de pico. Na correria entre plataformas de metrô, terminais integrados e paradas de ônibus, os usuários se veem expostos ao vírus constantemente. “Reclamam que a praia vive cheia, mas não botam ônibus suficientes e todo mundo quer entrar. Fora que tem passageiro que até bota máscara para entrar, mas dentro se dá o direito de ir sem ela”, diz a ambulante Ana Lúcia Maurício, 59, que anda de ônibus e metrô todo dia. “A pandemia atravessando o mundo e a gente vendo esse distanciamento social aqui. Zero”, comenta a assistente social Telma Couto, que vai ao trabalho no transporte sobre trilhos.


Nesta semana, a Associação Nacional das Empresas de Transportes Urbanos (NTU) divulgou um estudo que nega relação entre a circulação nos ônibus e algum aumento no número de casos de Covid-19. Apesar da preocupação dos usuários, a pesquisa comparou dados sobre o uso do transporte público com a incidência de infecções em 171 cidades do País, incluindo a Capital pernambucana e outros 12 municípios de Pernambuco. Entretanto, profissionais de saúde continuam considerando as aglomerações, comuns nos modais, como fator de risco.


Por meio de nota, o Grande Recife Consórcio de Transporte Metropolitano (GRCTM) informou que, mesmo com a retomada, tem registrado uma demanda de passageiros nos ônibus menor do que antes da pandemia. Atualmente, de acordo com o órgão, a procura pelos coletivos está em torno de 60% enquanto a frota em operação se encontra numa média de 70%, tendo algumas linhas com 100% dos veículos. Assim, o GRCTM ressaltou que busca manter a oferta de ônibus superior à demanda e que, nos terminais, se faz abordagem educativa dos usuários, inclusive entregando máscaras a quem não tem.


Já o Sindicato das Empresas de Transporte Integrado (Urbana-PE) afirmou que a pandemia repercutiu diretamente no transporte por ônibus e apresenta novos desafios, como a necessidade de adoção de protocolos, expondo a fragilidade de um sistema que “não conta com um modelo de custeio adequado”.  Além disso, a organização diz que tem contribuído com projetos e estudos para a implantação de faixas e corredores exclusivos e, assim, minimizar os impactos dos congestionamentos. 


A Companhia Brasileira de Trens Urbanos (CBTU), responsável pelo Metrô do Recife (Metrorec), também se pronunciou por nota. A empresa pública federal diz que está seguindo as orientações do Ministério da Saúde e tem reforçado a limpeza de trens e ampliado as campanhas informativas. O texto informa ainda que os trens têm 96 metros de comprimento com capacidade para 1.200 pessoas. “Portanto, pedimos a compreensão dos usuários para que, sempre que possível, mantenham uma distância segura entre si”, afirma a nota.


Fonte: Folha PE

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